The Last of Us

A Naughty Dog dá mais um passo em frente na aproximação dos vídeo jogos ao cinema. Para o seu último trabalho, o estúdio criou uma das mais realistas experiências de sobrevivência em cenário pós apocalíptico dos últimos anos, através de uma viagem a um dos mais hostis e violentos ambientes, onde a própria humanidade é constantemente questionada.

Joel é o personagem principal, que escapou a uma variante do fungo Cordyceps, que infectou grande parte dos seres humanos. 20 anos passados sobre o evento inicial, Joel é agora um homem adaptado a um futuro onde a sobrevivência é feita um dia de cada vez, e a qualquer custo. Quando Ellie, a jovem que guarda em segredo a possível cura para a epidemia, lhe é confiada, ambos embarcam numa viagem pelos Estados Unidos para chegar a um local que parece progressivamente mais longe, à medida que avançam pela ruas das cidades reivindicadas pela natureza, por pequenas povoações, e montanhas. É a cumplicidade entre os dois protagonistas, Ellie e Joel, que faz com que esta fosse uma narrativa particularmente atrativa. Se por um lado Ellie faz a ponte entre Joel e a sua humanidade perdida, reconciliando-o com os eventos do passado, Joel, por sua vez, assume o estatuto de figura parental para com Ellie, providenciando proteção e educação. Apesar de poderem contar com um apoio um do outro, o percurso estará recheado de situações de desespero e violência, embora adornadas com momentos de esperança e beleza natural dos cenários.

The Last of Us é uma aventura de grande qualidade, com representações de topo, dos atores que dão vida aos movimentos e vozes dos personagens. Foram eles que capturaram a nossa atenção para um tipo de estória, que tem muita dificuldade em despertar sentimentos no jogador, pela extrema violência associada ao género. É bastante fácil deixarmos crescer uma empatia para com os vários personagens que vão surgindo, ainda que eles próprios sejam a origem violência, repetidas vezes, durante a progressão no jogo. São as situações limite com os quais se deparam os personagens, que fazem com que seja difícil antever um outro desfecho para os acontecimentos. Continuando a dar vida aos personagens do enredo, foi também desenvolvido um grande trabalho no que diz respeito à animação, mantendo-se fluida durante todo o percurso, ainda que existam situações muito esporádicas em que a animação seja mais mecanizada. As cenas de vídeo que remetem para uma abordagem mais cinematográfica, são o apogeu do brilhantismo visual, ainda que o jogo seja todo ele tecnicamente impressionante. Desde os extremamente detalhados interiores dos edifícios e ruas, às impressionantes paisagens e efeitos atmosféricos. O jogo mantém uma qualidade constante em todos os segmentos, conseguindo até impressionar-nos à medida que avançamos por um cada vez maior número de ambientes diferentes.

O som é um elemento bastante importante no jogo, que a Naughty Dog soube utilizar de uma forma bastante interessante e realista. Alguns dos inimigos criados para o jogo depende apenas do som para nos detetar, pelo que teremos de utilizar diversos graus de silêncio e posicionamento para não sermos detetados. As habilidades de Joel permitem detectar os inimigos através do som, mesmo quando eles estão em outras divisões ou pisos de um mesmo prédio, dando ao jogador uma experiência similar à utilização da visão térmica proporcionada por aparelhos adequados para o efeito. A profundidade de campo também é tida em conta, um inimigo que esteja longe, ainda que virado precisamente para a nossa posição poderá não nos detetar, dependendo de diversos factores, como a velocidade da nossa deslocação, intensidade da luz, e dos efeitos atmosféricos. Seremos no entanto alertados com um sinal sonoro, que se torna progressivamente mais forte, à medida que os inimigos confirmam a nossa posição. Tudo é finalmente complementado com uma banda sonora minimalista que apenas surge em momentos chave.

Podem tecer-se similaridades, em parte, na componente da jogabilidade, com jogos como Splinter Cell, uma vez que muitos dos elementos técnicos utilizados para permanecermos longe da mira dos inimigos, não sendo detetados, são comuns em ambos. Mas The Last of Us tem os seus próprios mecanismos, que fazem dele uma experiência bastante diferente e satisfatória. Espalhados pelos cenários vão estar diversos utensílios, como lâminas, tesouras, trapos, álcool, explosivos, que poderemos combinar para criar bombas de fumo, facas, Cocktails de Molotov, kits de saúde, e ainda fazer upgrades aos utensílios de combate corpo a corpo. Estão também disponíveis uma série de upgrades às capacidades de Joel, que fazem com que possamos melhorar a sua audição, para ouvir ruídos mais longe, fazer com que os curativos possam ser aplicados num menor espaço de tempo, entre outras possibilidades ao dispor. Um sistema de upgrades também está disponível para as várias armas que vamos adquirindo, dotando-as de uma mais rápida resposta a nível de carregamento e de disparo, quantidade de munição, entre outros. As armas disponíveis irão variar entre arco e flecha, tubos, paus, carabinas, caçadeiras, e pistolas de vários tipos. O limitado número de munições à disposição faz com que o jogador pondere sempre tomar uma posição mais defensiva em muitos dos confrontos, eliminando muitos dos inimigos silenciosamente, apanhando-os por detrás. O combate corpo a corpo funciona bastante bem, e é quando melhor sentimos a violência associada à narrativa. Felizmente, a produtora não se deixou seduzir pelos eventos scriptados como forma de criar tensão. Em vez disso, fez com que o percurso do jogador seja todo ele uma verdadeira luta pela sobrevivência, em que o mais ligeiro descuido, como ser detetado pelos inimigos, poderão por um fim à aventura. A produtora também não se deixou levar pelo posicionamento óbvio e repetido dos objetos, em locais mais afastados do caminho central, em becos ou cantos. Existe a possibilidade de ganhar alguns extras com a exploração, mas não ao custo de explorar minuciosamente cada centímetro das várias zonas. Existe ainda um modo multijogador online, chamado Factions, que nos permite tomar um de dois lados disponíveis, Hunters ou Fireflies, para jogar em dois modos distintos, Survivors ou Raid. É interessante ver que mesmo neste modo de jogo, existe uma pequena estória associada que cria contexto para a ação.

A mestria na produção dos vários elementos deste título é evidente desde o primeiro momento em que começamos a jogar. A atenção aos detalhes é exaustiva. De facto, tudo está recriado de forma tão realista, que até os números de telefone que constam algures no jogo serão verdadeiros, e aparentemente, levam a uma linha erótica, segundo relatos de alguns jogadores. A produtora apressou-se no entanto a estabelecer uma correção para essa ligação não intencional, que já se encontra disponível para download. Apesar de ser um jogo com uma componente single player que aparentemente não merece uma segunda visita quando terminada a campanha, os diversos níveis de dificuldade criam uma experiência muito diferente, e requerem uma abordagem mais refletida nos graus mais elevados de dificuldade. Na fronteira entre a razão e humanidade, o jogo aborda questões como a necessidade de sobrevivência do ser humano a qualquer custo, quando a sua vida é ameaçada. É um jogo capaz de fazer-nos refletir um pouco sobre alguns dos assuntos mais elementares, sobre os quais felizmente, ainda temos relativamente poucas vezes a necessidade de explorar em detalhe. Dito isto, The Last of Us é sem qualquer dúvida a obra máxima da Naughty Dog, e um dos melhores jogos desta geração. 

Componente Pontuação
Gráficos 10.0
Som 9.5
Jogabilidade 9.5
Longevidade 8.5
Dificuldade 7.5
Nota Final 10.0
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29 Junho 2013 | gestor
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